.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Beatles' hysteria
Uma contemplação de
Miguel Ribeiro Pedras
o relógio marcava
12:58
1 observações atentas
terça-feira, 30 de março de 2010
Lisboa d'Eça
.
...sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e da Alfama descia com ângulos bruscos até as duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de crê luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
Eça de Queirós, in O Primo Basílio.
Uma contemplação de
Miguel Ribeiro Pedras
o relógio marcava
20:32
0
observações atentas
segunda-feira, 29 de março de 2010
Love the look
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
21:59
0
observações atentas
domingo, 28 de março de 2010
Le Grand Tour
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
09:23
0
observações atentas
sábado, 27 de março de 2010
Paris, je t'aime
.
Paris. Palavra mágica que evoca doces recordações e memórias ou desperta devaneios românticos de viagem. Respira-se, sob um manto de nostalgia, aquele je ne sais quoi tão presente em cada pedra, em cada museu, em cada bouquiniste.
Mas Paris, mesmo que se diga cidade eterna, não nasceu simplesmente à beira do Sena, como os canaviais que crescem na margem dos riachos. Semearam-na os romanos num pedacinho de terra a meio do rio. Depois espraiou-se, ramificou-se em torno das estradas que convergiam na ilha. Todos os caminhos iam dar a la Cité.
A medievalidade quis espartilhá-la numa cinta de muralhas onde o Louvre era ainda uma fortaleza. As trevas iluminaram-se com o Rei-Sol que lhe deu novo fôlego, enlaçando-a com caminhos arborizados que substituíram os velhos bastiões. O nome, apesar da mudança, manteve-se. Boulevards. Iam ser os primeiros de muitos.
Outros séculos correram. As revoluções, da nação e da indústria, deixaram-lhe cicatrizes. Tornava-se suja, cinzenta, insalubre. Os regimes sucediam-se, sobrevoando-a sem poisar por muito tempo, os Bourbon restaurados, depois os Orléans burgueses, a república de presidência bonapartista. Enfim, Luis Napoleão e um novo Império, quando se queria paz e prosperidade. A cidade não lhe satisfazia os caprichos e as grandezas. Almejava-se para ela a imponência de uma nova Roma.
Um homem viu, antes de todos os outros, a cidade admirável que havia de se rasgar no casario dos tempos passados. Uma praça aqui, uma avenida ali, o desafogo das igrejas e dos monumentos históricos, as estações e a ópera. Uma cidade imperial, cintilante e fogosa como as festas das Tuileries. Com punho de ferro, manejando régua e esquadro, ia traçando no papel uma urbe nova que esmagava os becos tortuosos da cidade velha. Fachadas uniformes, regulares e alinhadas, fachadas hipócritas que escondiam saguões despidos, pátios nus e cujos andares iam perdendo, na subida apressada, os mármores, os estuques e os degraus atapetados.
É a cidade de hoje. A Paris que delicia, que se imita e se inveja, deve-se a ele. Não toda, mas quase. Dizia-se desse homem, como se dizia do imperador, que era ambicioso e autoritário. Talvez. Mas os visionários são sempre loucos e apenas o tempo lhes traz a razão. O tempo que levou o homem com a mesma facilidade com que lhe perpetuou o nome. Haussmann.
Mas Paris, mesmo que se diga cidade eterna, não nasceu simplesmente à beira do Sena, como os canaviais que crescem na margem dos riachos. Semearam-na os romanos num pedacinho de terra a meio do rio. Depois espraiou-se, ramificou-se em torno das estradas que convergiam na ilha. Todos os caminhos iam dar a la Cité.
A medievalidade quis espartilhá-la numa cinta de muralhas onde o Louvre era ainda uma fortaleza. As trevas iluminaram-se com o Rei-Sol que lhe deu novo fôlego, enlaçando-a com caminhos arborizados que substituíram os velhos bastiões. O nome, apesar da mudança, manteve-se. Boulevards. Iam ser os primeiros de muitos.
Outros séculos correram. As revoluções, da nação e da indústria, deixaram-lhe cicatrizes. Tornava-se suja, cinzenta, insalubre. Os regimes sucediam-se, sobrevoando-a sem poisar por muito tempo, os Bourbon restaurados, depois os Orléans burgueses, a república de presidência bonapartista. Enfim, Luis Napoleão e um novo Império, quando se queria paz e prosperidade. A cidade não lhe satisfazia os caprichos e as grandezas. Almejava-se para ela a imponência de uma nova Roma.
Um homem viu, antes de todos os outros, a cidade admirável que havia de se rasgar no casario dos tempos passados. Uma praça aqui, uma avenida ali, o desafogo das igrejas e dos monumentos históricos, as estações e a ópera. Uma cidade imperial, cintilante e fogosa como as festas das Tuileries. Com punho de ferro, manejando régua e esquadro, ia traçando no papel uma urbe nova que esmagava os becos tortuosos da cidade velha. Fachadas uniformes, regulares e alinhadas, fachadas hipócritas que escondiam saguões despidos, pátios nus e cujos andares iam perdendo, na subida apressada, os mármores, os estuques e os degraus atapetados.
É a cidade de hoje. A Paris que delicia, que se imita e se inveja, deve-se a ele. Não toda, mas quase. Dizia-se desse homem, como se dizia do imperador, que era ambicioso e autoritário. Talvez. Mas os visionários são sempre loucos e apenas o tempo lhes traz a razão. O tempo que levou o homem com a mesma facilidade com que lhe perpetuou o nome. Haussmann.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
22:17
0
observações atentas
Agora é que são elas
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
10:28
0
observações atentas
sexta-feira, 26 de março de 2010
À beira-mar plantados
Uma contemplação de
Miguel Ribeiro Pedras
o relógio marcava
00:56
0
observações atentas
quinta-feira, 25 de março de 2010
You may need it.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
02:29
1 observações atentas
quarta-feira, 24 de março de 2010
Le gentilhomme
.
Os dias eram longos. À noite, servido o café, subia até ao nicho que ocupava no sótão, debaixo da telha nua, e despindo as roupas que o espartilhavam dia fora, suspirava então. Longe dos olhares onde flutuava o desprezo e a curiosidade, não se sentia invejado. E enroscando-se no cobertor esfarelado, ao aninhar-se na enxerga de palha, perdia a postura recta que ostentava diante dos patrões.
As mulheres disputavam-no. Os homens admiravam-no.
Às senhoras, cativava-as a firmeza dos traços, as proporções bem lançadas, o porte principesco. As palavras, mesmo que fossem poucas, eram sempre as exactas. Semeavam paixões, teciam elogios, mostravam simpatia. Viam na sua polidez toques de galanteria e, enlevadas, vingavam-se do jugo dos maridos decidindo onde serviria dele, emprestando-o entre si. Era presença em todos os bailes, nas soirées, nas garden-parties.
Os senhores seguiam-no discretamente, envergonhados com aquela avidez de lhe beber os gestos e as maneiras. Nunca um movimento em falso, um trejeito irreflectido.
Ele era de uma safra de homens do norte, onde se aliava a robustez saudável, a mesma das casas de granito em que nasciam, com a beleza e a suavidade dos socalcos dourados pelo sol descendo até ao rio.
Os dias eram longos. À noite, servido o café, subia até ao nicho que ocupava no sótão, debaixo da telha nua, e despindo as roupas que o espartilhavam dia fora, suspirava então. Longe dos olhares onde flutuava o desprezo e a curiosidade, não se sentia invejado. E enroscando-se no cobertor esfarelado, ao aninhar-se na enxerga de palha, perdia a postura recta que ostentava diante dos patrões.
Quando folgava, ia sem pressas a uma taberna imunda, depois da higiene com uma costureira muito decente, quase virginal. Lá, entre os copos que o vinho enrubescera e os risos sonoros dos bêbados, falava. Não maldizia os patrões, mas amaldiçoava-lhes a raça. E aspirava por um dia libertador, que derrubasse a ordem como um castelo de cartas. Clamava com furor, de punho cerrado. Queria a república.
Na manhã seguinte, erguia-se com a aurora e punha ainda mais esmero ao envergar a farda. Depois descia ao andar nobre, ao quarto de dormir onde a tinta de ouro realçava os relevos do estuque. Afastava as cortinas, ajoelhava junto do senhor e, ternamente, com uma meiguice paternal, murmurava-lhe os bons dias.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
19:19
0
observações atentas
terça-feira, 23 de março de 2010
Altos e baixos
-
No ano passado, vai para uns mesitos, veio a lume um estudo norte-americano acerca dos benefícios da altura nos humanos. Como é que ninguém pensou nisto?!
Vamos aos factos. Conclui o estudo de inestimável valor, diga-se, que as pessoas mais altas têm uma melhor vida e são, por isso mesmo, mais felizes. De facto, tendem a encarar de forma mais positiva os acontecimentos e registam frequentemente sentimentos positivos, como a alegria e a satisfação. Mas, há sempre um reverso da medalha, e os senhores que não se limitam ao metro e meio têm alguma propensão para o stress e a raiva. Contraditório? Talvez.
A ideia geral da investigação, publicada na Economics and Human Biology, é a de que existe uma relação bastante positiva entre altura, educação e nível de vida dos indivíduos. As omissões são evidentes. Então e o resto da população? Os obesos atarracados, os que padecem de nanismo, os velhinhos marrecos e, claro, aquele vasto sector da população que tem de usar os bicos dos pés para chegar a um balcão ou pedir, no supermercado, ao senhor do lado que chegue àquela prateleira mesmo lá em cima. Serão menos felizes?
A experiência diz-me que a altura tem as suas desvantagens. «Eh, que alto que está para a idade» e «oh rapaz, como está crescido» são dois miminhos com que na adolescência somos brindados pela vizinha ou pelas amigas da avó. As portas do metro e os pés-direitos menos generosos podem também ser um problema.
Um conselho? Sejam felizes sem olhar para a fita métrica. Altos ou baixos, não duvido que o bem-estar esteja ao alcance de todos. Pelo menos devia. Ah, sim! Já agora, cuidado com o aparelho malvado onde nos enfiam para os novos documentos de identificação. A mim, já me roubou dois felizes centímetros. De resto, diz o bordão que os homens não se medem aos palmos. E a felicidade também não.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
01:08
0
observações atentas
segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
Le Grand Tour
Uma contemplação de
Miguel Ribeiro Pedras
o relógio marcava
13:23
0
observações atentas
sábado, 20 de março de 2010
Roi de Rome
.
Chamaram-lhe Napoléon François Joseph Charles Bonaparte e deram-lhe, num império que se queria vasto como o dos augustos Césares, o título de Rei de Roma.
Napoleão, pai, via com orgulho os seus domínios cuja extensão alcançava, por essa altura, o seu máximo esplendor. Desde Espanha às portas da Rússia, o general imperava, ali com o próprio punho, acolá com gente sua a quem distribuía os novos reinos que ia desenhando a seu gosto. Só o diabo dos portugueses lhe haviam escapado para os trópicos.
Não durou muito este triunfo. Contava o jovem príncipe imperial com três anos e já se via perdido, aos solavancos, entre um castelo e outro, depois dos fracassos nas terras frias. Se ao pai impuseram o exílio de Elba, à esposa e ao filho destinaram a Áustria, terra natal da imperatriz Maria Luísa.
As abdicações de Bonaparte a favor do jovem pouco lhe serviram. Napoleão II foi imperador de papel passado, mas nunca de facto. Ficou-se como Duque de Reichstadt.
Gozava, singela compensação, do afecto dos que lhe eram próximos. Para os outros, os poucos que ainda o recordavam, cativo em Viena, era uma espécie de mito, o que restara de um sombra que pairara por toda a Europa. Sobre ele, pairou o fantasma da tuberculose, que o levou consigo. Alguns, cépticos, falam em coisa pensada, desconfiam da astúcia de Metternich.
Victor Hugo dedicou-lhe um poema, avenidas levaram o seu nome, o primo tomou o título de Napoleão III em sua memória e Hitler devolveu os restos mortais à república francesa. Não foi o suficiente para o perpetuar.
Tinha apenas vinte anos. Duas escassas décadas de uma vida que se imaginara grandiosa mas que fora definhando num palácio ocre com janelas verdes. Uma vida breve, tão longa como o voo de uma águia.
Foi em Paris. Dispararam-se cento e uma salvas de canhão. Era um rapaz.
Chamaram-lhe Napoléon François Joseph Charles Bonaparte e deram-lhe, num império que se queria vasto como o dos augustos Césares, o título de Rei de Roma.
Napoleão, pai, via com orgulho os seus domínios cuja extensão alcançava, por essa altura, o seu máximo esplendor. Desde Espanha às portas da Rússia, o general imperava, ali com o próprio punho, acolá com gente sua a quem distribuía os novos reinos que ia desenhando a seu gosto. Só o diabo dos portugueses lhe haviam escapado para os trópicos.
Não durou muito este triunfo. Contava o jovem príncipe imperial com três anos e já se via perdido, aos solavancos, entre um castelo e outro, depois dos fracassos nas terras frias. Se ao pai impuseram o exílio de Elba, à esposa e ao filho destinaram a Áustria, terra natal da imperatriz Maria Luísa.
As abdicações de Bonaparte a favor do jovem pouco lhe serviram. Napoleão II foi imperador de papel passado, mas nunca de facto. Ficou-se como Duque de Reichstadt.
Gozava, singela compensação, do afecto dos que lhe eram próximos. Para os outros, os poucos que ainda o recordavam, cativo em Viena, era uma espécie de mito, o que restara de um sombra que pairara por toda a Europa. Sobre ele, pairou o fantasma da tuberculose, que o levou consigo. Alguns, cépticos, falam em coisa pensada, desconfiam da astúcia de Metternich.
Victor Hugo dedicou-lhe um poema, avenidas levaram o seu nome, o primo tomou o título de Napoleão III em sua memória e Hitler devolveu os restos mortais à república francesa. Não foi o suficiente para o perpetuar.
Tinha apenas vinte anos. Duas escassas décadas de uma vida que se imaginara grandiosa mas que fora definhando num palácio ocre com janelas verdes. Uma vida breve, tão longa como o voo de uma águia.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
18:23
0
observações atentas
Uns e outros
Uma contemplação de
Miguel Ribeiro Pedras
o relógio marcava
13:55
2
observações atentas
sexta-feira, 19 de março de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
A última Ceia
.
Há jantares que não esquecemos. Porque a companhia foi memorável, porque revemos amigos de há longo tempo, porque o menu era um prazer para os sentidos, ou simplesmente porque o serviço foi tão mau que quase arruinava a noite.
Ora, a última Ceia parece reunir todos estes ingredientes. Já lá vão quase dois milénios e o mais impressionante de tudo, assim como que a provar a importância de uma simples refeição em toda a posteridade, é ver que continua na ordem do dia. Já se afastaram humoristas da ribalta, já se discutiu o sexo dos intervenientes nas pinturas do repasto, já se arruinaram jantares porque o número de convivas era o número proibido e, claro, já se decoraram milhares e milhares de salinhas de jantar com gravuras, relevos, estampas, óleos, tudo a retratar o jantar do Senhor.
De todas as representações deste episódio, umas das mais célebres é, sem dúvida, a da autoria de Da Vinci. Um cenóbio italiano, uma parede nua no refeitório, um artista famoso, e vai o Leonardo decorar o muro com um fresco de temática adequada. Como se a condição de obra de arte não lhe bastasse, tornaram-na num objecto místico. Ai, aquilo não é um apóstolo, é uma madalena arrependida. Oh, eles afastam as cabeças em triângulo e isso significa muito. Credo, que aquele gesto de cortar o pescoço é uma séria ameaça. E por aí fora.
Se isto já deu pano para mangas, imagine-se agora uma investigadora do Vaticano vir dizer que há mais segredinhos na pintura. Pois, foi exactamente o que aconteceu. A senhora diz que na janela central, onde apenas se avista uma paisagem de céu azul e colinas verdes, existe um enigma matemático. Ohh! E surpresa das surpresas, diz que o mundo acaba em 4006.
Alguém nos anda a enganar. Primeiro era em 2000, depois os Maias terminaram o calendário em 2012, agora vem o génio do Renascimento, ou alguém por ele, dizer que ainda temos mais dois milénios para continuar a fazer disparates por cá.
As datas não me preocupam. Prefiro, e recomendo o mesmo aos meus fidelíssimos leitores, que em vez de contar os dias que faltam para o fim, se aproveite cada um deles da melhor forma possível. Mesmo a sério. Como se fosse o último.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
13:22
7
observações atentas
quarta-feira, 17 de março de 2010
Do you miss the 80's?
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
18:56
3
observações atentas
Fin-de-siècle
.
Amava o campo como se amam os primos distantes. Revêem-se com gosto mas esquecem-se com facilidade.
A cidade merecia-lhe os arrebatamentos de uma paixão. Sentia na agitação dos boulevards, no reboliço dos mercados e na voracidade dos grands magasins, um prazer que se tornava quase carnal.
Nas manhãs soalheiras, que o bater dos cascos na calçada tornava ruidosas, saboreava, de chapéu alto e calça clara, o pregão dos ardinas, as silhuetas apresadas, os coupés mudos que rodavam furiosamente. A secura das avenidas, onde luziam montras que apregoavam um mundo e outro, quebrava-se aqui e ali pelas fontes e chafarizes, enfeitados com esculturas que atiravam jactos de água fresca, onde os jovens se entretinham em galanteios às raparigas.
Dos bancos e das administrações vinha o martelar do telégrafo e a estridência das campainhas eléctricas. Nas estações, catedrais onde os fortes arcobotantes góticos haviam dado lugar à transparência das naves de ferro e vidro, desfilavam passageiros blasfemando pelos atrasos.
Anoitecia. Os candeeiros vacilavam ante a baforada dos transeuntes que se acotovelavam, no roçagar dos linhos e das sedas. Os passeios enchiam-se, nas calçadas não paravam de trotar carruagens com gente festiva, embriagada, na promiscuidade das cantoras de cabarets e dos senhores da política. Ultimavam-se encontros nos restaurantes, à luz de uma vela gasta e dos papéis de paredes amarelecidos pelos charutos.
Passava, indiferente a tudo. Chapéu alto e calça clara. Uma banca de florista lembrava-lhe o campo, a frescura do orvalho, o cri-cri dos grilos. E a serenidade, a pureza que impregnava os prados e os riachos. Regressou a si, chamavam-no. Duas mulheres decotadas, lábios vermelhos, cabeleira exagerada, acenavam-lhe diante de um bordel. Continuou.
Em casa, na mansarda que abria para o boulevard, dormiu. Perdido e cansado. A cidade oprimia-o, sem lhe corresponder a paixão. Do campo, sempre pronto a recebê-lo, não tinha saudades. Restava-lhe a praia. Sonhou com a areia macia e a cadência esverdeada das ondas. Havia de ir a banhos, a Biarritz. Estava na moda.
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
02:08
0
observações atentas
terça-feira, 16 de março de 2010
Quem te viu...
Uma contemplação de
Hugo Franco d'Araújo
o relógio marcava
14:24
1 observações atentas
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















