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terça-feira, 11 de maio de 2010
Comme il faut
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Hugo Franco d'Araújo
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
O Tibre e o Tejo
.
Que anda tudo louco com isto do Papa, que se retoca o Terreiro do Paço ainda mal acabado, que se interditam ruas e avenidas, que se arranjou mais um pretexto para folgar do emprego, que se engalanam as varandas com estandartes alusivos à ocasião, nada disso é novidade.
Melhor ou pior, há que compreender o fervor efusivo da larga fatia de população que se afirma católica, mesmo que diga «sim, mas não praticante». Bom, ao menos que lhes fiquem os valores. Querem ver Sua Santidade, acenar-lhe com efusão, ou ao menos entrever os reflexos metálicos do papamóvel ou avistar, no cimo do seixo que lhe serve de palco, a mitra reluzente do Príncipe da Igreja. Vontades e desejos que, de resto, merecem respeito, e nada se aponta a que o Estado português receba com honras um Chefe de Estado estrangeiro.
A coisa tornou-se hoje mais interessante. Banho tomado, roupa vestida, e vá de saltar para a rua. A dois passos, logo ali na avenida, avista-se um autocarro engalanado com bandeirolas amarelas e brancas. Nada como ver de perto.
E eis que as viaturas, carregadinhas de povoléu logo pela manhã, coisa que as cabeças aglomeradas atrás dos vidros baços não faz duvidar, agitam alegremente bandeiras do Vaticano. Não é só. No visor, onde é conveniente que surja o destino e o número da carreira, lê-se que a Carris saúda o Sumo Pontífice. Informação de extrema relevância, até porque, estando o trânsito interrompido nas vias por onde Bento XVI há-de passar, dificilmente chegará ao seu conhecimento que a transportadora alfacinha tanto esmero põe nas saudações pontifícias.
E assim, logo pela manhã, a sacra azáfama arranca aos lábios um largo sorriso. Ali, em plena Avenida da República, rodeado de bandeirolas vaticanas, estandartes e polícia, julguei-me na Via della Conciliazione. E temi, alongando a vista até lá ao fundo, vislumbrar, onde outrora julgava o Atrium Saldanha, a cúpula monumental da Basílica de Pedro.
Mas não. Como sempre, a Lisboa costumada levanta-se em redor, muito ufana, engalanada com vaidade, esticando-se nos seus frágeis bicos dos pés, antes de recair na velha cantiga da molenguice quotidiana.
À falta de remédio para os crónicos males do povo, ao menos que se aproveite a efeméride.
Que anda tudo louco com isto do Papa, que se retoca o Terreiro do Paço ainda mal acabado, que se interditam ruas e avenidas, que se arranjou mais um pretexto para folgar do emprego, que se engalanam as varandas com estandartes alusivos à ocasião, nada disso é novidade.
Melhor ou pior, há que compreender o fervor efusivo da larga fatia de população que se afirma católica, mesmo que diga «sim, mas não praticante». Bom, ao menos que lhes fiquem os valores. Querem ver Sua Santidade, acenar-lhe com efusão, ou ao menos entrever os reflexos metálicos do papamóvel ou avistar, no cimo do seixo que lhe serve de palco, a mitra reluzente do Príncipe da Igreja. Vontades e desejos que, de resto, merecem respeito, e nada se aponta a que o Estado português receba com honras um Chefe de Estado estrangeiro.
A coisa tornou-se hoje mais interessante. Banho tomado, roupa vestida, e vá de saltar para a rua. A dois passos, logo ali na avenida, avista-se um autocarro engalanado com bandeirolas amarelas e brancas. Nada como ver de perto.
E eis que as viaturas, carregadinhas de povoléu logo pela manhã, coisa que as cabeças aglomeradas atrás dos vidros baços não faz duvidar, agitam alegremente bandeiras do Vaticano. Não é só. No visor, onde é conveniente que surja o destino e o número da carreira, lê-se que a Carris saúda o Sumo Pontífice. Informação de extrema relevância, até porque, estando o trânsito interrompido nas vias por onde Bento XVI há-de passar, dificilmente chegará ao seu conhecimento que a transportadora alfacinha tanto esmero põe nas saudações pontifícias.
E assim, logo pela manhã, a sacra azáfama arranca aos lábios um largo sorriso. Ali, em plena Avenida da República, rodeado de bandeirolas vaticanas, estandartes e polícia, julguei-me na Via della Conciliazione. E temi, alongando a vista até lá ao fundo, vislumbrar, onde outrora julgava o Atrium Saldanha, a cúpula monumental da Basílica de Pedro.
Mas não. Como sempre, a Lisboa costumada levanta-se em redor, muito ufana, engalanada com vaidade, esticando-se nos seus frágeis bicos dos pés, antes de recair na velha cantiga da molenguice quotidiana.
À falta de remédio para os crónicos males do povo, ao menos que se aproveite a efeméride.
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Hugo Franco d'Araújo
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domingo, 9 de maio de 2010
Le Grand Tour
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sábado, 8 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Don't cry for me
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Uma multidão serena espraia-se diante da varanda da Casa Rosada, onde Evita canta para a multidão. A encenação musical guardou para a história uma imagem idílica de Eva Duarte, Perón por casamento, rosto que a Argentina confunde consigo mesma.
Nascida a 7 de Maio, no mesmo ano em que, por cá, o azeite Gallo começava a cantar, a ambição que lhe crescia em pequenina, materializou-se na mulher já adulta. Na simplicidade rústica que conhecia, sonhava com uma vida de glamour e boémia, de sucesso e bem-estar. Julgavam-na iludida, mas nas voltas que a vida dá, e nas voltas que Eva deu até Buenos Aires, conheceu o general que havia de a levar, primeiro à varanda, depois ao mundo.
Viviam-se tempos difíceis. Juan Domingo Perón assumiu a Argentina em 1946 e moldou um estado de gosto autoritário e paternalista, como os que iam também pontilhando pela Europa. Aos descamisados, à gente rude e sofrida, do campo e das fábricas, Eva, Perón desde 1944, surgia como a mãe protectora, a alma desvelada, a matrona das obras sociais. Com carinho, chamaram-lhe Evita, sem saber do conforto e dos caprichos que desfilavam do outro lado das paredes rosadas da Casa, erguida entre a Plaza de Mayo e o rio da Prata.
Trinta e três anos apenas, que a vida não se alongou mais, bastaram para construir o mito. Quiseram canonizá-la, puseram-lhe o nome numa cidade e os anos não travaram a discussão. Santa, cruel adversária política, impiedosa ou simplesmente mulher? Uma mulher ambiciosa, implacável e simultaneamente consciente do seu papel simbólico numa nação que o tempo tornou nostálgica?
A resposta é daquelas que a disparidade de olhares e de ideias não permite. A História, volúvel e inconstante como os homens que a fazem, nunca a encontrará.
Uma multidão serena espraia-se diante da varanda da Casa Rosada, onde Evita canta para a multidão. A encenação musical guardou para a história uma imagem idílica de Eva Duarte, Perón por casamento, rosto que a Argentina confunde consigo mesma.
Nascida a 7 de Maio, no mesmo ano em que, por cá, o azeite Gallo começava a cantar, a ambição que lhe crescia em pequenina, materializou-se na mulher já adulta. Na simplicidade rústica que conhecia, sonhava com uma vida de glamour e boémia, de sucesso e bem-estar. Julgavam-na iludida, mas nas voltas que a vida dá, e nas voltas que Eva deu até Buenos Aires, conheceu o general que havia de a levar, primeiro à varanda, depois ao mundo.
Viviam-se tempos difíceis. Juan Domingo Perón assumiu a Argentina em 1946 e moldou um estado de gosto autoritário e paternalista, como os que iam também pontilhando pela Europa. Aos descamisados, à gente rude e sofrida, do campo e das fábricas, Eva, Perón desde 1944, surgia como a mãe protectora, a alma desvelada, a matrona das obras sociais. Com carinho, chamaram-lhe Evita, sem saber do conforto e dos caprichos que desfilavam do outro lado das paredes rosadas da Casa, erguida entre a Plaza de Mayo e o rio da Prata.
Trinta e três anos apenas, que a vida não se alongou mais, bastaram para construir o mito. Quiseram canonizá-la, puseram-lhe o nome numa cidade e os anos não travaram a discussão. Santa, cruel adversária política, impiedosa ou simplesmente mulher? Uma mulher ambiciosa, implacável e simultaneamente consciente do seu papel simbólico numa nação que o tempo tornou nostálgica?
A resposta é daquelas que a disparidade de olhares e de ideias não permite. A História, volúvel e inconstante como os homens que a fazem, nunca a encontrará.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
Vox populi
-
Quem com cães se deita, com pulgas se levanta.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
Ficções
-
Foi até à varanda contemplar a noite. Soprava uma brisa leve, daquelas que traz consigo recordações de bons momentos na serenidade tranquila de um final de dia. Lembranças, paixões, pequenos nadas nostálgicos que lhe alimentavam o desejo de sentir-se vivo.
Alimentava-se do passado pela necessidade de ter em si a consistência dele próprio, a noção de que, como uma planta, ia criando raízes à medida que desabrochava. Apoiado no balcão, aspirando o sossego do luar e o vazio escuro lá de baixo, não pode deixar de sorrir ao pronunciar interiormente a palavra. Diabo de malícia, nem assim lhe escapava.
Voltou para dentro, acolhendo-se na luz tépida do quarto e na suavidade dos lençóis. Era depois de se enroscar neles, ao rever os dias, que sentia o maior prazer. E sonhava depois, sonhava ambiciosamente, mas com os pés tão assentes no chão como quando matinalmente despertava e saltava da cama.
Desprezava a ficção, sorria dos sonhos e gozava a vida.
Foi até à varanda contemplar a noite. Soprava uma brisa leve, daquelas que traz consigo recordações de bons momentos na serenidade tranquila de um final de dia. Lembranças, paixões, pequenos nadas nostálgicos que lhe alimentavam o desejo de sentir-se vivo.
Alimentava-se do passado pela necessidade de ter em si a consistência dele próprio, a noção de que, como uma planta, ia criando raízes à medida que desabrochava. Apoiado no balcão, aspirando o sossego do luar e o vazio escuro lá de baixo, não pode deixar de sorrir ao pronunciar interiormente a palavra. Diabo de malícia, nem assim lhe escapava.
Voltou para dentro, acolhendo-se na luz tépida do quarto e na suavidade dos lençóis. Era depois de se enroscar neles, ao rever os dias, que sentia o maior prazer. E sonhava depois, sonhava ambiciosamente, mas com os pés tão assentes no chão como quando matinalmente despertava e saltava da cama.
Desprezava a ficção, sorria dos sonhos e gozava a vida.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
O tempo, esse grande escultor
.
No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
Marguerite Yourcenar
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Miguel Ribeiro Pedras
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domingo, 2 de maio de 2010
Le Grand Tour
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Miguel Ribeiro Pedras
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sábado, 1 de maio de 2010
Das exposições
.
Seis milhões. Seis milhões de visitantes que, em 1851, desfilaram por Hyde Park, percorrendo o globo sem abandonar a sombra do arvoredo e as luminosas naves do Palácio de Cristal.
Tal foi o sucesso da Exposição, pioneira, que quatro anos depois se delineava uma outra em Paris. Por cá, o Porto ergueu também o seu palácio, à escala que podia ter, que um pavilhão de desportos substituiu abruptamente
Na Grande Exposição, a indústria dera o mote. Na China de 2010 pensa-se numa melhor cidade que traga melhor vida, sempre com um pé no desenvolvimento sustentável. Entre uma e outra, o mundo mudou. Sinal dos tempos e das vontades, resta esperar que não seja tarde para encontrar o equilíbrio.
Hoje em Shanghai, há mais de século e meio em Londres, inaugurava-se com solenidade uma Exposição Universal.
O plano era mais que ambicioso. Reunir num só lugar, sob uma ampla abóbada de vidro, os progressos industriais de todas as nações. Duplo mérito da Grã-Bretanha, que além de ostentar as suas capacidades técnicas e científicas, mostrava igualmente a capacidade de acolher um mundo inteiro no seu modesto território insular.
Seis milhões. Seis milhões de visitantes que, em 1851, desfilaram por Hyde Park, percorrendo o globo sem abandonar a sombra do arvoredo e as luminosas naves do Palácio de Cristal.
Tal foi o sucesso da Exposição, pioneira, que quatro anos depois se delineava uma outra em Paris. Por cá, o Porto ergueu também o seu palácio, à escala que podia ter, que um pavilhão de desportos substituiu abruptamente
Na Grande Exposição, a indústria dera o mote. Na China de 2010 pensa-se numa melhor cidade que traga melhor vida, sempre com um pé no desenvolvimento sustentável. Entre uma e outra, o mundo mudou. Sinal dos tempos e das vontades, resta esperar que não seja tarde para encontrar o equilíbrio.
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sexta-feira, 30 de abril de 2010
Le Nozze di Figaro
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quinta-feira, 29 de abril de 2010
Vox populi
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As cadelas apressadas têm os filhos cegos.
As cadelas apressadas têm os filhos cegos.
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Yesterday night
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quarta-feira, 28 de abril de 2010
Ai, a saudade
.
Esta palavra saudade
aquele que a inventou
a primeira vez que a disse
com certeza que chorou.
Esta palavra saudade
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com certeza que chorou.
Afonso Lopes Vieira
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terça-feira, 27 de abril de 2010
L'Artiste
.
Atravessou o país inteiro, viu-o ser reino, república e império. Dos franceses recebeu a melhor das prendas, aplausos, risos, gargalhadas. A voz e elegância em palco notabilizaram-no, perpetuando o seu nome na história da ópera, do teatro, da música e da comédia.
Bendito o dia em que abandonou a casa onde nascera, renegando a vontade do pai para que, seguindo-lhe os passos, se tornasse cirurgião. Bendita a hora em que, chegado a Paris, abraçou fortemente o seu sonho e mergulhou no mundo do espectáculo. Benditos todos os momentos em que da sua pena brotaram peças e libretos, em que do seu timbre e gestos se soltaram da mais tímida à mais atrevida risada do público.
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Miguel Ribeiro Pedras
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
O dia seguinte
.
O lucro modesto dava-lhe alento para emperiquitar o estabelecimento e trazer às clientes uma ou outra novidade. O rebuçado colorido de sabores exóticos, o tira-nódoas milagroso ou o bálsamo da juventude.
Alice não lhe largava a casa. Aviava-se todos os dias, antes de subir ao seu terceiro andar nos Fanqueiros, vinda do ministério onde secretariava o dia inteiro. O fiambre, o grão, o leite ou o sabão davam-lhe o mote para dois dedos de conversa e uns tostões deixados na loja.
Ontem mesmo, vira desfilar na calçada cravos vermelhos. Depois, ouvira dizer que o regime mudara. Hoje, ouvia logo da soleira da porta os lamentos da cliente, esfalfada pela balbúrdia da liberdade. A ela ninguém podia apontar o dedo. Mas vira coisas, lá isso vira, a queima de papéis, gavetas revolvidas, gente corrida a pontapé das repartições. Temia pelo emprego, pelo sustento, e não via o caso com bons olhos.
Já ele, o da venda, sacudia os ombros com desprezo. Assim ou assado, tinham todos de comer. Não se lhe fraquejava o negócio só porque os cabeçalhos dos papéis do governo mudavam. O diabo era a Matilde, a velha avarenta, que lhe levara um bacalhau fiado quarta-feira e na sexta ainda não o pagara.
Os hábitos não se mudavam de um dia para o outro. Quanto ao resto, sempre fora assim. Rei morto, rei posto.
Tinha uma mercearia, na Baixa, entalada entre um sapateiro e uma loja de modas.
Alice não lhe largava a casa. Aviava-se todos os dias, antes de subir ao seu terceiro andar nos Fanqueiros, vinda do ministério onde secretariava o dia inteiro. O fiambre, o grão, o leite ou o sabão davam-lhe o mote para dois dedos de conversa e uns tostões deixados na loja.
Ontem mesmo, vira desfilar na calçada cravos vermelhos. Depois, ouvira dizer que o regime mudara. Hoje, ouvia logo da soleira da porta os lamentos da cliente, esfalfada pela balbúrdia da liberdade. A ela ninguém podia apontar o dedo. Mas vira coisas, lá isso vira, a queima de papéis, gavetas revolvidas, gente corrida a pontapé das repartições. Temia pelo emprego, pelo sustento, e não via o caso com bons olhos.
Já ele, o da venda, sacudia os ombros com desprezo. Assim ou assado, tinham todos de comer. Não se lhe fraquejava o negócio só porque os cabeçalhos dos papéis do governo mudavam. O diabo era a Matilde, a velha avarenta, que lhe levara um bacalhau fiado quarta-feira e na sexta ainda não o pagara.
Os hábitos não se mudavam de um dia para o outro. Quanto ao resto, sempre fora assim. Rei morto, rei posto.
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domingo, 25 de abril de 2010
Le Grand Tour
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sábado, 24 de abril de 2010
Agora é que são elas
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sexta-feira, 23 de abril de 2010
Quem te viu...
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e quem te vê.
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quinta-feira, 22 de abril de 2010
Five o'clock
-
Com o chá quente diante de si, a cabeça fumegava-lhe de ideias.
Com o chá quente diante de si, a cabeça fumegava-lhe de ideias.
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À la Malmaison
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quarta-feira, 21 de abril de 2010
Nascida do pó
.
Na aridez do planalto central brasileiro nascia uma cidade nova, fruto dos sonhos de muitos e da vontade de um só.
Vivia-se então, pelos anos 50, uma era de prosperidade no Brasil. Caminhava, acreditava-se, para um futuro dourado, de nação forte e pioneira, rumo a um destino glorioso e vasto, tão vasto como a fatia do hemisfério por onde se estendiam os domínios de Vera Cruz.
Este foi, aliás, um dos nomes propostos para o baptismo da capital, a nova, planeada desde Pombal, no desejo grandioso de povoar um quase continente e levar ao interior, ao sertão árido e mudo, as gentes que se amontoavam nas colinas de Salvador e do Rio.
Com a independência, gritada no Ipiranga, a ideia ganhou força mas não foi longe. Era cómoda a cidade maravilhosa, que já vira reis e imperadores, banhada pela Guanabara, de clima mais risonho e luminoso.
Uma capital nova, mais além de Minas Gerais e Goiás, onde até poucos se tinham aventurado, tornou-se até coisa de lei. As Constituição deixava delimitado um pedaço da terra prometida.
Enfim, no entusiasmo do progresso, uma cidade ergue-se na terra vermelha, soprada do pó como as bíblicas personagens, abrindo as suas asas diante de um oásis azul, na gesto simples de uma cruz, de um assinalar de local, de uma ave que paira e abençoa a obra criadora. O primeiro fôlego deu-lhe Juscelino Kubitschek, depois moldou-a Lúcio Costa. Niemeyer deu-lhe corpo, o povo deu-lhe alma.
Fria, admirável ou incompreensível, de arquitectura fantástica ou repugnante, feita para a escala de gigantes que nunca a habitaram ou com as dimensões ideais, assim variam as vozes que dela comentam, sem a sentirem bem, por não terem lá raízes as gerações que primeiro a ocuparam.
Se os habitantes passam se lhe deixar marca, a obra permanece. Questione-se-lhe ou não o gosto, a virtude, a estética ou a razão de ser, a verdade é que a Brasília utópica de muitos séculos se tornou real pela vontade e pelo pulso dos homens. Mas não foram só os que as letras de bronze inscrevem na pedra dos memoriais. Foram aqueles que anónimos, indiferentes à obra que faziam, a erigiam mais pela necessidade de sobreviver que de criar.
Brasília. O sonho que persistiu, sem se desvanecer sob calor sufocante, deu razão a quem a quis, pensou e fez. Foi há cinquenta anos.
Na aridez do planalto central brasileiro nascia uma cidade nova, fruto dos sonhos de muitos e da vontade de um só.
Vivia-se então, pelos anos 50, uma era de prosperidade no Brasil. Caminhava, acreditava-se, para um futuro dourado, de nação forte e pioneira, rumo a um destino glorioso e vasto, tão vasto como a fatia do hemisfério por onde se estendiam os domínios de Vera Cruz.
Este foi, aliás, um dos nomes propostos para o baptismo da capital, a nova, planeada desde Pombal, no desejo grandioso de povoar um quase continente e levar ao interior, ao sertão árido e mudo, as gentes que se amontoavam nas colinas de Salvador e do Rio.
Com a independência, gritada no Ipiranga, a ideia ganhou força mas não foi longe. Era cómoda a cidade maravilhosa, que já vira reis e imperadores, banhada pela Guanabara, de clima mais risonho e luminoso.
Uma capital nova, mais além de Minas Gerais e Goiás, onde até poucos se tinham aventurado, tornou-se até coisa de lei. As Constituição deixava delimitado um pedaço da terra prometida.
Enfim, no entusiasmo do progresso, uma cidade ergue-se na terra vermelha, soprada do pó como as bíblicas personagens, abrindo as suas asas diante de um oásis azul, na gesto simples de uma cruz, de um assinalar de local, de uma ave que paira e abençoa a obra criadora. O primeiro fôlego deu-lhe Juscelino Kubitschek, depois moldou-a Lúcio Costa. Niemeyer deu-lhe corpo, o povo deu-lhe alma.
Fria, admirável ou incompreensível, de arquitectura fantástica ou repugnante, feita para a escala de gigantes que nunca a habitaram ou com as dimensões ideais, assim variam as vozes que dela comentam, sem a sentirem bem, por não terem lá raízes as gerações que primeiro a ocuparam.
Se os habitantes passam se lhe deixar marca, a obra permanece. Questione-se-lhe ou não o gosto, a virtude, a estética ou a razão de ser, a verdade é que a Brasília utópica de muitos séculos se tornou real pela vontade e pelo pulso dos homens. Mas não foram só os que as letras de bronze inscrevem na pedra dos memoriais. Foram aqueles que anónimos, indiferentes à obra que faziam, a erigiam mais pela necessidade de sobreviver que de criar.
Brasília. O sonho que persistiu, sem se desvanecer sob calor sufocante, deu razão a quem a quis, pensou e fez. Foi há cinquenta anos.
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Long live the Queen
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terça-feira, 20 de abril de 2010
They are family
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A família mais famosa dos Estados Unidos e arredores nasceu de uma curta-metragem no The Tracy Ullman Show. Mais célebre até, arriscaria a dizer, que qualquer clã presidencial que ocupe a Casa Branca. Com domicílio fixo em Evergreen Terrace, numa Springfield de um dos estados norte-americanos, há anos que animam os serões de miúdos e graúdos.
Ousados, idiotas e, acima de tudo, bem-humorados, os membros da família formam um grupo mais do que heterogéneo. Apesar das contrariedades, dos acidentes e das peripécias impossíveis, existe uma forte ligação entre todos que garante a sustentabilidade da prole de Homer e Marge.
Caracteristicamente amarelos, cabelos irreverentes ou falta deles, olhos grandes e sorrisos largos, os Simpsons são inconfundíveis. O sucesso, todavia, foi tão inesperado quanto repentino. As primeiras aparições aconteceram no programa de Tracey, à laia de sketch bem-disposto. Foi paixão à primeira vista. Dos cinco minutos de fama rapidamente passaram ao episódio de meia hora. E as temporadas sucederam-se uma após outra, numa quase inesgotável criatividade de argumentos e personagens.
Razões para o sucesso? O humor, do naïf ao mórbido, a crítica aos costumes e ao conservadorismo exagerado ou ao cego fanatismo e, talvez a mais forte, as semelhanças entre ficção e realidade. O chefe de família preguiçoso e despreocupado, a dona de casa omnipresente, a rapariga ajuizada e inteligente, o enfant terrible, traquina e irresponsável e a bebé astuta, possuem traços que facilmente se apontam aos que se cruzam connosco.
O patrão avarento, o vizinho idiota, os desenhos animados violentos, a cerveja e os amigos aproximam-se igualmente do quotidiano, tão comuns que ultrapassam as fronteiras e deixam que mesmo na Europa se reconheçam nas personagens muitos traços dos esplendores e das misérias quotidianas.
Quase sem dar por isso, tornaram-se um caso sério de longevidade. Contas feitas, já lá vão mais de vinte anos. Surpreendente? Bart teria a exclamação ideal. ¡Ay, caramba!
A família mais famosa dos Estados Unidos e arredores nasceu de uma curta-metragem no The Tracy Ullman Show. Mais célebre até, arriscaria a dizer, que qualquer clã presidencial que ocupe a Casa Branca. Com domicílio fixo em Evergreen Terrace, numa Springfield de um dos estados norte-americanos, há anos que animam os serões de miúdos e graúdos.
Ousados, idiotas e, acima de tudo, bem-humorados, os membros da família formam um grupo mais do que heterogéneo. Apesar das contrariedades, dos acidentes e das peripécias impossíveis, existe uma forte ligação entre todos que garante a sustentabilidade da prole de Homer e Marge.
Caracteristicamente amarelos, cabelos irreverentes ou falta deles, olhos grandes e sorrisos largos, os Simpsons são inconfundíveis. O sucesso, todavia, foi tão inesperado quanto repentino. As primeiras aparições aconteceram no programa de Tracey, à laia de sketch bem-disposto. Foi paixão à primeira vista. Dos cinco minutos de fama rapidamente passaram ao episódio de meia hora. E as temporadas sucederam-se uma após outra, numa quase inesgotável criatividade de argumentos e personagens.
Razões para o sucesso? O humor, do naïf ao mórbido, a crítica aos costumes e ao conservadorismo exagerado ou ao cego fanatismo e, talvez a mais forte, as semelhanças entre ficção e realidade. O chefe de família preguiçoso e despreocupado, a dona de casa omnipresente, a rapariga ajuizada e inteligente, o enfant terrible, traquina e irresponsável e a bebé astuta, possuem traços que facilmente se apontam aos que se cruzam connosco.
O patrão avarento, o vizinho idiota, os desenhos animados violentos, a cerveja e os amigos aproximam-se igualmente do quotidiano, tão comuns que ultrapassam as fronteiras e deixam que mesmo na Europa se reconheçam nas personagens muitos traços dos esplendores e das misérias quotidianas.
Quase sem dar por isso, tornaram-se um caso sério de longevidade. Contas feitas, já lá vão mais de vinte anos. Surpreendente? Bart teria a exclamação ideal. ¡Ay, caramba!
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Second Empire
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
O homem e o betão
O campus do Instituto Superior Técnico, a fonte monumental da Alameda, a auto-estrada que de Lisboa não chegava ao Porto ou a mancha verde de Monsanto. Tudo isto se deve, de uma forma ou de outra, a Duarte Pacheco.
Por aquele tempo, o regime sonhava com uma Lisboa que, na sua grandiosidade austera, se impusesse com a dignidade de capital do Império. Em 40, expôs-se o mundo português aos mundos, abriu-se a Portela ao pouso de aviões e empertigou-se a cidade, numa pompa joanina desfasada das inovações que então se buscavam.
Lisboa, lugar obrigatório de realizações públicas, acabara por ombrear com o próprio Ministério, sob os desígnios do Engenheiro. Mesmo que considerasse o regime fechado, havia que o abrir à cultura e ao progresso, e deixar transparecer para além da velha Lusitânia, a imagem de um Estado que, mesmo em tempos de guerra, se mostrava pacífico na sua obra.
A ponte que hoje se discute, entre uma banda e outra, já ele a mandara estudar, no desejo de estender, a partir da capital, uma rede de comunicações que se espelhava também nas reformas dos correios e dos telefones. A via rápida ficou-se por Vila Franca, mas teve o mérito de ser pioneira. A marginal, que serpenteia ao sol pela beira do Tejo, não teve menos utilidade. Do punho de Duarte vieram projectos, planos e despachos, sementes insignificantes de onde brotavam depois os monumentos que impressionavam, por inéditos, inovadores ou grandiosos.
A ironia, que prefere dar ares de sua graça mais na tragédia que na felicidade, marcou presença no final da vida do professor e estadista. Ele que imaginara uma rede de vias de comunicação, veio a falecer num acidente automóvel, vinco do sul. Mau grado seu, não possuía a robustez do betão que lhe sustentava as obras. Sucumbiu aos quarenta e quatro anos.
A memória de quem foi permanece, no Viaduto e por toda a cidade, onde rasgos de imponência e perspectivas monumentais, traçadas para engrandecer a vastidão do Império, relembram a visão ampla do Homem.
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Hugo Franco d'Araújo
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domingo, 18 de abril de 2010
Le Grand Tour
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Miguel Ribeiro Pedras
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sábado, 17 de abril de 2010
Agora é que são elas
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Miguel Ribeiro Pedras
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Do engenho e da arte
Uma máquina de voar. Até ao século XX, nada mais que uma utopia. Era coisa de ave, isso de planar no céu azul e esvoaçar entre rochedos escarpados no topo das montanhas. Um sonho, nada mais.
Alguns, temerários, quiseram desafiar a física e, não era pouca gente a dizê-lo, o próprio Deus. Os destemidos mergulhavam no abismo, num voo certo e fatídico, diante de multidões ávidas, como o alfaiate que, lançando-se da Torre Eiffel, acreditava nas asas de pano que vestira. Ao menos, a Passarola de Gusmão ou o balão dos Montgolfier haviam tido melhor sorte.
Antes dele, um outro homem sonhara mais alto e construíra, no ar e no papel, castelos bem mais sólidos. Nascera em Vinci, a 15 de Abril do remoto ano de 1452 e fora baptizado com o nome de Leonardo. Quase sete décadas depois, quando a morte o levou, possuía um legado fascinante. Homem de mil ofícios, mente rara onde conviviam em perfeita harmonia as ciências, as artes e as letras, personificou como nenhum outro o ideal renascentista.
Os esboços das máquinas de voar, que hoje se dizem perfeitamente exequíveis, os estudos anatómicos, a Última Ceia, a enigmática senhora do sorriso, o Homem de Vitrúvio, os poemas, a escrita invertida, mil e uma coisas que, séculos volvidos, mantêm a mesma vitalidade e alimentam intermináveis polémicas. Discute-se-lhe a inteligência, os engenhos, a sexualidade, os significados ocultos de cada obra-prima, mas sem questionar nunca o valor inestimável do ser humano.
Louva-se-lhe a multiplicidade de interesses, a capacidade de alargar os horizontes a todo o conhecimento. Agora, prefere-se a especialização, estudada até ao mais ínfimo pormenor. Não teria Da Vinci uma visão mais acertada de, afinal, tudo o que nos rodeia? Não seria ele um homem bem mais completo e em larga comunhão com a natureza, alimentando-se do prazer e da estética que a arte e o saber lhe traziam?
Canta a Pedra Filosofal que o sonho comanda a vida e, escreve Pessoa, o homem sonha e a obra nasce. Leonardo não voou, mas sonhou. E deu o passo essencial para a criação. Mais do que a obra e o génio, admire-se o homem. O homem que, cinco séculos depois de ter finalmente alcançado os céus, continua a mostrar-se como um admirável exemplo. Nem que seja, já o dizia Gedeão, pelo sonho, essa constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer.
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Hugo Franco d'Araújo
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
Um novo século
.
1900. O presidente Émile Loubet inaugura com solenidade a Exposição Universal de Paris.
A cidade cintilava com esperança no novo século. O desenvolvimento cultural, os avanços científicos, as revoluções da indústria, os cânones de gosto, o melhor de cada Estado, exibia-se com orgulho nos vastos pavilhões aglomerados em redor da Torre que, apesar das adversidades, se mantinha desde 1889 de pedra e cal, ou melhor, de ferro e aço.
Dos quatro cantos do globo, se os tivesse, chegavam milhões de visitantes assombrados com as maravilhas da electricidade, com os filmes sonoros e as escadas rolantes. Acreditava-se no progresso com a mesma força que se atribui a uma divindade superior e omnipotente. Não interessava bem como nem porquê. O fantástico era percorrer um pedaço de Paris, engalanada para a exibição e desfrutar da obra e das coisas tecidas pela mão humana.
Paris aprumou-se a rigor para a solenidade. Construíram-se gares, lançaram-se pontes, abriu-se a primeira linha de metropolitano. O Grand Palais testemunha, se bem que tenuemente, a monumentalidade das construções fundindo-se com a cidade na sua transparência de ferro e vidro.
Sem adivinhar a Guerra que havia de chegar depois, vivia-se com animação e confiança o tempo de paz e prosperidade. De resto, quem não se assombrava com inventos capazes de coisas que antes não se diriam possíveis? Já o conselheiro Pinto Porto, na Civilização de Eça, confidenciava ao fonógrafo o respeito pelas proezas daquela época.
«Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?»
1900. O presidente Émile Loubet inaugura com solenidade a Exposição Universal de Paris.
A cidade cintilava com esperança no novo século. O desenvolvimento cultural, os avanços científicos, as revoluções da indústria, os cânones de gosto, o melhor de cada Estado, exibia-se com orgulho nos vastos pavilhões aglomerados em redor da Torre que, apesar das adversidades, se mantinha desde 1889 de pedra e cal, ou melhor, de ferro e aço.
Dos quatro cantos do globo, se os tivesse, chegavam milhões de visitantes assombrados com as maravilhas da electricidade, com os filmes sonoros e as escadas rolantes. Acreditava-se no progresso com a mesma força que se atribui a uma divindade superior e omnipotente. Não interessava bem como nem porquê. O fantástico era percorrer um pedaço de Paris, engalanada para a exibição e desfrutar da obra e das coisas tecidas pela mão humana.
Paris aprumou-se a rigor para a solenidade. Construíram-se gares, lançaram-se pontes, abriu-se a primeira linha de metropolitano. O Grand Palais testemunha, se bem que tenuemente, a monumentalidade das construções fundindo-se com a cidade na sua transparência de ferro e vidro.
Sem adivinhar a Guerra que havia de chegar depois, vivia-se com animação e confiança o tempo de paz e prosperidade. De resto, quem não se assombrava com inventos capazes de coisas que antes não se diriam possíveis? Já o conselheiro Pinto Porto, na Civilização de Eça, confidenciava ao fonógrafo o respeito pelas proezas daquela época.
«Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?»
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terça-feira, 13 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Humor de perdição
.
Goste-se ou não, Herman José é uma referência do humor em Portugal. Ousado, inovador e provocante, se as mentalidades lusitanas mudaram ao longo das últimas décadas, um pedaço dessa transformação, por ínfimo que seja, dever-se-á a ele. Cada sketch, cada irreverência, cada golpe desferido num conservadorismo mais de fachada que de alma derrubava tabus ou esbatia pudores.
As caricaturas, da tia Pureza à Maximiliana, mostraram as fraquezas, os tiques e as pequenas misérias quotidianas que se querem esconder debaixo do tapete. Fez sucesso. Os pitorescos Nelo e Idália, com resmas de ignorância trapalhona na conveniência flagrante de um casamento de faz-de-conta ou os respeitáveis convidados do Boião de cultura, numa versão menos narrável da história portuguesa, fizeram o país rir de si mesmo.
A roda da sorte girou. Com a Última Ceia a polémica estalou, impondo-lhe um exílio temporário, longe da ribalta. Irreverências empurraram-no para um percurso nómada, em busca do tal canal.
A erosão do tempo fez-se sentir, mais tarde ou mais cedo. Novos talentos, novos formatos, novas formas de cravar ferroadas na mesquinhez que não raras vezes ainda persiste, desgastaram o humorista mas não lhe roubaram o mérito. HermanSic arrastou-se anos, num horário de domingo tardio, vazio de graças e conteúdos. O programa terminou na hora H. O declínio era evidente. Com mais do mesmo, em outros horários, forçou-se uma reabilitação, nem sempre com os melhores resultados.
Agora, anuncia-se novo regresso de Herman, desta feita na RTP. Estará ele de parabéns por voltar ao ecrã ou corre o risco de o seu humor o levar à perdição? Diz o povo, naquela sabedoria frequentemente duvidosa, que é melhor cair em graça do que ser engraçado. A ver vamos.
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Hugo Franco d'Araújo
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domingo, 11 de abril de 2010
Le Grand Tour
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sábado, 10 de abril de 2010
Agora é que são elas
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Cidade etérea
.
Diluem-se, diante da imagem do presente, as lembranças do quotidiano gradualmente transformado, com tantos vagares que as mudanças, longe de serem súbitas, apenas se percebem em certas comparações que revolvem a infância quase esquecida ou a adolescência irreverente e nostálgica.
A cidade perde-se no correr do dia-a-dia. A de hoje está longe de se assemelhar à da década de 60 ou 70. Onde estão os autocarros verdes? Os velhos torniquetes do metropolitano, as paredes sujas onde se pintavam propagandas da Revolução ou o vasto estacionamento do Terreiro do Paço? Para melhor ou pior, o certo é que a cidade mudou.
A fotografia é dessa metamorfose apenas um testemunho ténue. Se a uns serve de alavanca, pondo a rolar a engrenagem da imaginação, da tentativa vã de reconstituir uma época que não se viveu, para outros é um interruptor que acende as lembranças que a pouco e pouco se foram empurrando para um canto escuro da memória.
A urbe, como alguém que envelhece, transforma-se em tornos dos traços fixos que lhe dão carácter. A fisionomia, reconhecível, vai sofrendo os ajustes que o tempo lhe confere. De São Pedro de Alcântara hão-de avistar-se as sete colinas da tradição, o castelo, sereno e dominador, no alto do seu monte, as ameias da Sé esticando-se por entre o casario e as ruelas tortuosas de Alfama, o risco azul do Tejo rematado no horizonte pela Arrábida. Mas em baixo, no formigueiro de gente e no amontoado de telhados que se espraia como um lençol ondulado, mudam-se gentes e fachadas.
Uma Lisboa de anos longínquos existe apenas dentro de cada um que a conheceu. Por isso, hoje, observemos todos os nadas que lhe dão essência e vida e que lhe escrevem a história, e perpetuemos uma imagem que em breve se desmaterializará. E um dia, ainda distante, quando recuperarmos a lembrança vaga e enevoada da cidade de hoje, perceberemos que, na subtileza da mudança, quase incompreensível, passou uma vida inteira.
Um autocarro vermelho de dois andares, perdido no mar de trânsito, com o Big Ben ao fundo. É Londres, claro.
Quase não se sabe é que em Lisboa também circularam autocarros semelhantes às célebres viaturas londrinas. Pois é. Verdinhos, com dois pisos, eles faziam várias carreiras pela cidade. Haverá pouca gente a recordar-se deles. Não tanto pelo tempo em que deixaram de servir mas mais por aquela renovação constante que se faz da memória.
Diluem-se, diante da imagem do presente, as lembranças do quotidiano gradualmente transformado, com tantos vagares que as mudanças, longe de serem súbitas, apenas se percebem em certas comparações que revolvem a infância quase esquecida ou a adolescência irreverente e nostálgica.
A cidade perde-se no correr do dia-a-dia. A de hoje está longe de se assemelhar à da década de 60 ou 70. Onde estão os autocarros verdes? Os velhos torniquetes do metropolitano, as paredes sujas onde se pintavam propagandas da Revolução ou o vasto estacionamento do Terreiro do Paço? Para melhor ou pior, o certo é que a cidade mudou.
A fotografia é dessa metamorfose apenas um testemunho ténue. Se a uns serve de alavanca, pondo a rolar a engrenagem da imaginação, da tentativa vã de reconstituir uma época que não se viveu, para outros é um interruptor que acende as lembranças que a pouco e pouco se foram empurrando para um canto escuro da memória.
A urbe, como alguém que envelhece, transforma-se em tornos dos traços fixos que lhe dão carácter. A fisionomia, reconhecível, vai sofrendo os ajustes que o tempo lhe confere. De São Pedro de Alcântara hão-de avistar-se as sete colinas da tradição, o castelo, sereno e dominador, no alto do seu monte, as ameias da Sé esticando-se por entre o casario e as ruelas tortuosas de Alfama, o risco azul do Tejo rematado no horizonte pela Arrábida. Mas em baixo, no formigueiro de gente e no amontoado de telhados que se espraia como um lençol ondulado, mudam-se gentes e fachadas.
Uma Lisboa de anos longínquos existe apenas dentro de cada um que a conheceu. Por isso, hoje, observemos todos os nadas que lhe dão essência e vida e que lhe escrevem a história, e perpetuemos uma imagem que em breve se desmaterializará. E um dia, ainda distante, quando recuperarmos a lembrança vaga e enevoada da cidade de hoje, perceberemos que, na subtileza da mudança, quase incompreensível, passou uma vida inteira.
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quarta-feira, 7 de abril de 2010
tarde de Graça
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terça-feira, 6 de abril de 2010
O exilado
.
6 de Abril de 1814. Em Fontainebleau, umas das residências que lhe era mais querida, assina uma abdicação. Mas diz-se que as esperanças morrem por último e ele depositou-as em seu filho, criança ainda, que fizera Rei de Roma.
O império não renasceu. Mas as esperanças, essas, não tinham sucumbido ainda. Mesmo em Elba, a proximidade ao continente aguçava-lhe o apetite e o desejo de posse, de reconquista, de ir, de ver e de vencer, mais uma vez. Foi, de facto. Mas não ficou mais do que cem dias, cem dias que lhe mataram definitivamente a fé.
Santa Helena calmou-lhe a impaciência de um retorno e tornou-lhe árida a sede de poder. Quando morreu, quase esquecido, numa amargura solitária do desterro, era apenas um homem comum. O apelido era Bonaparte. O nome, Napoleão.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Le Grand Tour
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Miguel Ribeiro Pedras
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sábado, 3 de abril de 2010
Um mais um
.
Haverá um segredo para estes amores tão fortes? Um matemático castelhano veio dizer que sim. Servindo-se da teoria matemática do controlo optimal, o tal investigador chegou a uma conclusão deliciosamente brilhante. É necessário um investimento contínuo para compensar o desgaste natural do amor.
Uma daquelas ideias inéditas. Ninguém diria que somos gente de carne e osso, que a nossa personalidade se molda vida fora e que nem sempre nos relacionamos do mesmo modo com os outros. Ame-se ou não, a forma de o fazer também se altera com tudo isto tornando necessária uma adaptação constante.
Matemáticas fora, ficam os sentimentos. Esses sim incertos, oscilantes, imperfeitos, mas tão naturais quanto humanos. Um mais um serão sempre dois, mas a soma nem sempre resulta de forma igual. O tempo encarrega-se de tirar a prova dos nove. De resto, costuma o povo dizer, quando um não quer, dois não fazem.
O amor acontece. Mesmo que se compreenda, dificilmente se explica. Eterno ou efémero, correspondido ou não, apaixonante ou idílico, mais a uns que a outros.
Talvez não exista sequer como o imaginamos. Confundem-se nele a amizade, o carinho, até o ódio, sem deixar perceber bem fronteiras definidas. Simplesmente emoções.
Gente há com o mérito de fazer o amor perdurar bem mais do que se imagina. No jardim, nas áleas douradas pelo sol, caminham às vezes, com a quietude e a segurança que só as longas décadas de vida lhes dão, parzinhos românticos, de rostos vincados pelo tempo, onde o amor se foi metamorfoseando em tolerância, em compreensão, num comodismo recatado das coisas do coração. Amam-se sem ter a necessidade de o dizer. Apenas porque o sentem.
Haverá um segredo para estes amores tão fortes? Um matemático castelhano veio dizer que sim. Servindo-se da teoria matemática do controlo optimal, o tal investigador chegou a uma conclusão deliciosamente brilhante. É necessário um investimento contínuo para compensar o desgaste natural do amor.
Uma daquelas ideias inéditas. Ninguém diria que somos gente de carne e osso, que a nossa personalidade se molda vida fora e que nem sempre nos relacionamos do mesmo modo com os outros. Ame-se ou não, a forma de o fazer também se altera com tudo isto tornando necessária uma adaptação constante.
Matemáticas fora, ficam os sentimentos. Esses sim incertos, oscilantes, imperfeitos, mas tão naturais quanto humanos. Um mais um serão sempre dois, mas a soma nem sempre resulta de forma igual. O tempo encarrega-se de tirar a prova dos nove. De resto, costuma o povo dizer, quando um não quer, dois não fazem.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010
Imperial Easter
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quinta-feira, 1 de abril de 2010
Monarquia de Abril
.
São Bento rendeu-se sem dificuldade, não havendo resistência por parte dos partidos políticos com assento parlamentar. Ao início da tarde, o Presidente da República deixou Belém e procurou refúgio na travessa do Possolo, vendo-se depois obrigado a rumar para sul, onde deixou o país numa embarcação ancorada perto de Boliqueime.
No largo do Município, sob as buzinas dos automobilistas incomodados com as obras no Terreiro do Paço, um conjunto de notáveis proclamou a Monarquia, restaurada na pessoa de D. Duarte II. Rosario Poidimani já fez saber que vai agir judicialmente contra o Estado Português e o Duque de Loulé abandonou imediatamente o país.
Quando tentava sair do território, no congestionado aeroporto da Portela, um membro do governo deposto teve ainda tempo de, questionado acerca dos malefícios da mudança de regime, responder que para pior não se pode ir e que é necessário manter a confiança e o optimismo.
Aguardam-se com expectativa as reacções internacionais e a aceitação do novo Reino de Portugal.
O Principado da Fuzeta já informou que reconhece o actual monarca português e aproveitou para se proclamar independente. São más notícias para o turismo. Este verão, o Algarve vai estar mais pequeno.
As bandeiras azuis e brancas hasteadas em diversos pontos do país serviram de alerta. Foi restaurada a Monarquia em Portugal.
Pelas 7h da manhã o Palácio de Belém começou a ser bombardeado a partir de um cruzador ao largo do Tejo. Ao mesmo tempo, enquanto a rádio transmitia o Hino da Carta, diversas forças militares concentraram-se na Praça Marquês de Pombal, condicionando fortemente o trânsito e provocando o caos à entrada de Lisboa.
São Bento rendeu-se sem dificuldade, não havendo resistência por parte dos partidos políticos com assento parlamentar. Ao início da tarde, o Presidente da República deixou Belém e procurou refúgio na travessa do Possolo, vendo-se depois obrigado a rumar para sul, onde deixou o país numa embarcação ancorada perto de Boliqueime.
No largo do Município, sob as buzinas dos automobilistas incomodados com as obras no Terreiro do Paço, um conjunto de notáveis proclamou a Monarquia, restaurada na pessoa de D. Duarte II. Rosario Poidimani já fez saber que vai agir judicialmente contra o Estado Português e o Duque de Loulé abandonou imediatamente o país.
Quando tentava sair do território, no congestionado aeroporto da Portela, um membro do governo deposto teve ainda tempo de, questionado acerca dos malefícios da mudança de regime, responder que para pior não se pode ir e que é necessário manter a confiança e o optimismo.
Aguardam-se com expectativa as reacções internacionais e a aceitação do novo Reino de Portugal.
O Principado da Fuzeta já informou que reconhece o actual monarca português e aproveitou para se proclamar independente. São más notícias para o turismo. Este verão, o Algarve vai estar mais pequeno.
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